Da periferia para o mundo: concerto marca 20 anos de projeto no Recife
Concerto no Teatro de Santa Isabel celebrou 20 anos do projeto Orquestra Criança Cidadã, no Recife. A iniciativa formou mais de 1.500 jovens do Coque e de Igarassu, com egressos em orquestras no Brasil e no exterior.
O carpete vermelho do Teatro de Santa Isabel, inaugurado em 1850 em estilo neoclássico, recebeu na última sexta (24) e sábado (25) não apenas um concerto, mas a celebração de duas décadas de uma decisão de ofício que mudou trajetórias. Subindo ao camarote, Ivone do Santos, de 57 anos, segurava o ingresso para ver o filho, o violista Isaías Tavares, de 33 anos, tocar. "Teve muito sofrimento para chegar até aqui", disse ela, com os olhos marejados.
O concerto marcou os 20 anos do projeto Orquestra Criança Cidadã, criado em 25 de julho de 2006. O diretor e criador, o juiz de direito João Targino, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), faz questão de explicar que o primeiro objetivo não é apenas formar músicos, mas cidadãos. "Nós começamos esse trabalho há 20 anos e eu pude ver o quanto a música é transformadora na vida de uma pessoa", afirmou.
A transformação começa no bairro do Coque, que tinha o menor índice de desenvolvimento humano do Recife. Foi lá que Isaías, aos 11 anos, entrou para o projeto em 2006. A família morava em uma casa de tábuas de madeira que uma tempestade derrubou em 2009. Os responsáveis pela iniciativa conseguiram doações para erguer uma residência de alvenaria em outra rua do bairro, pagando o aluguel até o novo lar ficar pronto.
A viola de caixa de papelão e o galho de goiabeira
Antes de ter o instrumento, Isaías simulava a viola com uma caixa de papelão e ensaiava o movimento do arco com um pedaço de galho de goiabeira perto de casa. Ivone, que aos 11 anos já fazia faxina e cuidava de crianças, abandonou a escola para sustentar o filho como empregada doméstica. "Foi minha mãe que me estimulou e nunca me deixou desistir", afirmou o músico.
O projeto tem sede em um quartel do Exército próximo ao Coque. Na época, o maestro potiguar Cussy de Almeida estava na regência. Isaías passou a contar com três refeições diárias, algo impossível antes. Quando levava a viola para casa, Ivone, mesmo cansada, ouvia o filho ensaiar até adormecer.
De Salzburgo a Goiânia: a rota do arco
Aos 18 anos, Isaías passou em um processo seletivo e foi estudar no conservatório superior em Salzburgo, na Áustria. Tocou na Orquestra Sinfônica de Wels e viajou pela Europa. Ao voltar ao Recife, avisou a mãe que faria concurso para a Orquestra Sinfônica de Goiânia, onde trabalha há 15 anos como violista principal. Ele e dois outros colegas da orquestra passaram em primeiro lugar nos seus instrumentos.
Um desses colegas é o contrabaixista Antonino Tertuliano. Atualmente, ele é o único latino-americano entre os 100 integrantes da Orquestra Filarmônica de Duisburg, na Alemanha. Antonino se lembra da primeira vez que tocou no Santa Isabel: "Foi aqui que tudo começou".
O contrabaixo como escolha de ofício
A opção pelo contrabaixo surgiu, segundo Antonino, pela ideia de que poderia ser um "instrumento difícil". Com 16 anos, já sabia que a música seria sua profissão. Em qualquer momento livre, fazia a caminhada de 20 minutos até a orquestra e ficava o tempo que podia na sala de estudos. Os demais adolescentes eram como irmãos, com os mesmos objetivos: dar um futuro melhor e se afastar dos destinos de outros rapazes da comunidade, atraídos pelo crime.
Os músicos reconhecem que o cenário local se alterou com a implementação da orquestra. Antonino conseguiu aprovar um projeto, via Lei Rouanet, para captar recursos e apresentar música clássica em escolas no Nordeste. O trio de músicos, formado por ele e mais dois europeus, se chama Palíntonos, expressão que "significa flexibilidade e tensão, mas nunca rompimento".
O doutorado que pesquisa a própria história
Outra egressa da primeira turma, a violoncelista Herlane da Silva, de 31 anos, está no doutorado em Houston (EUA). Ela pesquisa a importância dos projetos sociais latino-americanos na formação de músicos. No concerto, tocou para a mãe, a dona de casa Patrícia, e para o pai, o pedreiro Herculano José. "Quando eu cheguei na sala, meu coração começou a palpitar", disse, ao assistir às crianças ensaiando.
A roça que virou palco
A transformação não existe apenas no Coque, mas também em um núcleo na área rural de Igarassu, a cerca de 30 quilômetros do Recife. Lá, 40 crianças e adolescentes, filhos de pais que trabalham na roça, trocam a lida no campo por instrumentos musicais. "Eles veem no projeto uma oportunidade de crescer, de conhecer e expandir os horizontes", afirmou a professora Basemate Neves, que coordena as atividades no local.
Quatro alunos de Igarassu foram aprovados no curso de música da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Entre eles, José Felipe da Silva, 20 anos, contrabaixista. Conheceu o projeto há 10 anos na escola pública onde estudava. Antes, sua rotina era acompanhar os pais na plantação de milho, inhame, macaxeira e feijão. Da casa na roça até a escola de música, eram 30 minutos de caminhada, atravessando mata fechada até pegar um ônibus.
Perguntas Frequentes
O que é o projeto Orquestra Criança Cidadã?
É um projeto social criado em 25 de julho de 2006, no Recife, pelo juiz João Targino. Oferece formação musical e cidadã a crianças e adolescentes de comunidades de baixa renda.
Quantos jovens já passaram pelo projeto?
Mais de 1.500 jovens já passaram pelo projeto, com sede em um quartel do Exército e um núcleo rural em Igarassu.
Onde fica o Teatro de Santa Isabel?
Fica no Recife (PE), inaugurado em 1850 em estilo neoclássico, palco dos concertos comemorativos de 20 anos do projeto.
Quem são os egressos de destaque do projeto?
O violista Isaías Tavares, da Orquestra Sinfônica de Goiânia; o contrabaixista Antonino Tertuliano, da Filarmônica de Duisburg (Alemanha); e a violoncelista Herlane da Silva, doutoranda em Houston (EUA).
Como funciona o núcleo rural em Igarassu?
Atende 40 crianças e adolescentes filhos de trabalhadores rurais. Quatro alunos foram aprovados no curso de música da UFPE.
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