Crítica · Análises e Críticas

Representação indígena vai além de candidatos eleitos, diz cineasta

ResumoO documentário Minha Terra Estrangeira, do cineasta João Moreira Salles e do Coletivo Lakapoy, defende que a representação indígena no Brasil transcende a eleição de candidatos. A obra, exibida no festival Bonito Cinesur, acompanha o líder Almir Suruí e sua filha Txai durante o processo eleitoral, evidenciando a luta política e a presença contínua dos povos originários na esfera pública.

No documentário Minha Terra Estrangeira, o cineasta João Moreira Salles e o Coletivo Lakapoy mostram que a representação indígena no Brasil vai além dos candidatos eleitos. A obra, exibida no festival Bonito Cinesur, acompanha o líder Almir Suruí e sua filha Txai nas eleições de

Hélio Bastos Caetano
Hélio Bastos Caetano Colunista de Cinema Cult e Clássicos · 29 de julho de 2026
Representação indígena vai além de candidatos eleitos, diz cineasta
9.4/10
VereditoNo documentário Minha Terra Estrangeira, o cineasta João Moreira Salles e o Coletivo Lakapoy mostram que a representação indígena no Brasil vai além dos candidatos eleitos. A obra, exibida no festival Bonito Cinesur, acompanha o líder Almir Suruí e sua filha Txai nas eleições de

Representação indígena vai além de candidatos eleitos, diz cineasta

João Moreira Salles volta sua câmera para as eleições brasileiras em seu novo longa documental, Minha Terra Estrangeira, uma das atrações do festival Bonito Cinesur, que ocorre até sábado (1°/8). Desta vez, porém, a câmera não está sozinha. Salles convidou Louise Botkay e o Coletivo Lakapoy para acompanhar o líder indígena Almir Suruí e sua filha durante as eleições de 2022. O resultado, segundo o diretor, foi "fascinante".

Para Salles, a representação indígena vai além dos candidatos eleitos. "Há uma geração nova de militantes indígenas que vem com uma força muito grande. Uma das personagens do filme, a Txai, representa isso muito bem. Há um movimento de uma geração inteira de indígenas que não quer mais ser representada, que quer ser representante", disse o cineasta.

Como o documentário aborda a representatividade indígena?

A ideia inicial de Salles era fazer um filme centrado em Txai, mas a candidatura do pai dela a deputado federal mudou a perspectiva. "Minha Terra Estrangeira conta muitas histórias e uma questão importante do filme é a representatividade indígena no Congresso. De lá para cá houve avanços e eu sei que o número de candidatos aumentou muito", disse Louise Botkay, em entrevista antes da exibição do filme no festival.

Apesar do aumento, a representatividade ainda é pequena. Dos 50 indígenas que se candidataram em 2022, apenas cinco foram eleitos para deputado federal.

A dupla filmagem: pai na campanha, filha na militância

Para mostrar a dualidade e a cumplicidade entre pai e filha, a filmagem foi dividida. O Coletivo Lakapoy, formado principalmente por cineastas indígenas, e Louise Botkay filmaram Almir em campanha eleitoral. Salles voltou sua câmera para Txai, liderando protestos e se preparando para falar na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), em 2021.

Na montagem, as imagens de pai e filha se cruzaram, rompendo a linearidade comum em filmes políticos. "Para mim foi extraordinário entender onde está a colaboração. A verdadeira colaboração se manifestou no momento da montagem. O filme é como é por causa de uma discussão sobre o que ele deveria ser e de que maneira ele deveria ser estruturado", ressaltou Salles.

A perspectiva indígena na montagem

Nas discussões sobre a finalização, a perspectiva indígena prevaleceu. "Ela é mais potente politicamente", afirmou o cineasta. Ao verem a primeira versão, os indígenas questionaram o final vitorioso, já que a experiência indígena no Brasil é mais associada à derrota.

"Então, o filme foi remontado a partir de um entendimento diferente de como o tempo passa. O nosso tempo tende a ser um tempo linear, é uma seta do tempo. O tempo indígena é de outra natureza, ele é um pouco circular", explicou Salles.

Um cinema em espiral

Com isso, o filme rompeu com a forma tradicional, adotando um modelo em espiral, com avanços, repetições e recuos. "Não passava pela minha cabeça que, em um filme sobre uma campanha eleitoral e sobre um processo que é eminentemente analógico, seria possível fazer uma coisa diferente que não acompanhasse o tempo. Isso me colocou mais próximo da cosmovisão indígena", concluiu o diretor.

Por que isso importa para você?

Minha Terra Estrangeira não é apenas um documentário político. É um convite para repensar como enxergamos a representação indígena. Ao mostrar a força de uma geração que quer ser protagonista, o filme nos lembra que a democracia se constrói também nas ruas, nos protestos e nas conferências internacionais, não apenas nas urnas.

Perguntas Frequentes

O que é o documentário Minha Terra Estrangeira?

É um longa documental de João Moreira Salles que acompanha o líder indígena Almir Suruí e sua filha Txai durante as eleições de 2022, abordando a representação indígena no Brasil.

Quem participa da produção do filme?

Além de João Moreira Salles, participam Louise Botkay e o Coletivo Lakapoy, formado principalmente por cineastas indígenas.

Quantos indígenas foram eleitos em 2022?

Dos 50 indígenas candidatos, apenas cinco foram eleitos para deputado federal.

Onde o filme foi exibido?

O documentário foi uma das atrações do festival Bonito Cinesur, que ocorre até sábado (1°/8).

Qual a principal mensagem do filme?

Que a representação indígena vai além dos candidatos eleitos, sendo também construída pela militância de uma nova geração que quer ser representante, não apenas representada.

*A repórter viajou a convite do Bonito CineSur

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