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Grande Sertão: Veredas faz 70 anos e permanece instigante

ResumoGrande Sertão: Veredas, obra de Guimarães Rosa lançada em 1956, completa 70 anos em 2026 mantendo potência literária. O livro combina rigor formal e possessão criativa, com linguagem que confundiu a intelectualidade da época e ainda instiga leitores e críticos contemporâneos. A narrativa permanece relevante por sua inovação estilística e profundidade temática.

Lançado em 1956, Grande Sertão: Veredas completa 70 anos em 2026 sem perder potência. A obra de Guimarães Rosa, que combinou rigor formal e possessão criativa, continua a provocar leitores e críticos, com sua linguagem que confundiu a intelectualidade da época e ainda hoje soa ra

Bárbara Ishikawa
Bárbara Ishikawa Entrevistadora e Repórter de Bastidores de Cinema · 18 de julho de 2026
Grande Sertão: Veredas faz 70 anos e permanece instigante
8.0/10
VereditoLançado em 1956, Grande Sertão: Veredas completa 70 anos em 2026 sem perder potência. A obra de Guimarães Rosa, que combinou rigor formal e possessão criativa, continua a provocar leitores e críticos, com sua linguagem que confundiu a intelectualidade da época e ainda hoje soa ra

Grande Sertão: Veredas faz 70 anos e permanece instigante

Depois de 70 anos de seu lançamento, Grande Sertão: Veredas continua a instigar leitores e especialistas. Para o imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) Eduardo Giannetti, é um dos livros mais ousados e inovadores da literatura brasileira. A obra, que combina rigor formal e entrega criativa, foi gestada em um processo que o próprio autor descrevia como quase mediúnico.

Giannetti observa que o livro tem "um cuidado e um apuro formal, inexcedível" e, ao mesmo tempo, é resultado de uma possessão criativa. "Ele chega a dizer que é um experimento quase mediúnico", disse o acadêmico em entrevista à Agência Brasil. "Grande Sertão combina dois elementos. Tem um lado de pesquisa de apuro formal, de um cuidado lapidar com a linguagem hiperconsciente, mas, ao mesmo tempo, é resultado de uma possessão. Ele diz que se sentia tomado por alguma coisa que ele não sabe de onde."

Sobre o processo criativo, Giannetti lembrou de uma expressão usada por Rosa em uma entrevista: "De repente, o diabo me cavalga". O milagre do processo criativo de Guimarães Rosa, segundo ele, é justamente essa combinação entre controle e entrega.

Como a obra foi gestada: uma viagem e uma decisão de bastidor

A criatividade do autor mineiro era tamanha que, entre 1946 e 1956, ele produziu paralelamente Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, uma coletânea de novelas. Ambos foram concluídos e lançados em 1956, depois de começarem a ser escritos em Paris, na França; continuarem em Bogotá, na Colômbia; e em 1951, na volta de Rosa para o Rio de Janeiro.

O jornalista Leonêncio Nossa, autor da primeira biografia sobre o escritor mineiro, revelou à Agência Brasil que "o Grande Sertão era uma história do Corpo de Baile, que ele desmembrou e tornou um romance independente". A viagem com um amigo ao interior mineiro foi a inspiração para escrever o romance. "Esse livro começou quando ele fez uma viagem pelo interior de Minas com o amigo Pedro Barbosa Moreira e percorreu toda a região de Veredas. Ele passou a usar esse ambiente das veredas e buritizais na obra dele."

Assim como Rosa levou dez anos para concluir Grande Sertão, Nossa passou o mesmo tempo pesquisando a vida do mineiro para escrever João Guimarães Rosa, biografia, a primeira publicação do tipo dedicada a ele. "Ele é considerado o mais inventivo dos nossos escritores e ninguém nunca escreveu uma biografia dele. Havia uma demanda de biografar o maior escritor brasileiro de todos os tempos", pontuou.

A linguagem que confundiu a crítica

Quando o livro foi lançado, recebeu muitas críticas, especialmente pela linguagem popular dos personagens, identificada como "de outro planeta". Nossa conta que "os personagens que os críticos diziam que falavam como em Marte na verdade falavam como o povo do interior do Brasil. Mostrou que parte da intelectualidade desconhecia este 'outro planeta', que é o Brasil."

Rosa disse uma vez que as pessoas achavam que ele tinha inventado uma língua. "Eu não inventei uma língua. Os vaqueiros de Minas Gerais, da Bahia, de Goiás falam assim." O biógrafo reforçou que o começo do livro com a palavra "nonada" não é um neologismo, era recorrente nos jornais brasileiros da época.

Entre o difícil e o popular: a musicalidade que venceu

Ao mesmo tempo em que era considerado um livro difícil, Grande Sertão estava sempre entre os mais vendidos, já em 1956. "O que ocorre é que a musicalidade no linguajar dos personagens causa muita empatia, tanto que é um livro que deve ser lido em voz alta porque com a musicalidade é fácil de entender", apontou o jornalista.

A cantora e compositora Adriana Calcanhotto, que tem nas obras de Guimarães Rosa uma fonte de inspiração, destacou que se o escritor não tivesse usado a linguagem no livro, correria o risco de não haver mais registros daquela forma de falar popular. "É uma leitura obrigatória. Grande Sertão é um livro que todo mundo tem que ler pelo menos uma vez. Quando você lê ele mais de uma vez, e é um clássico, por isso, é outro livro e a gente é outra pessoa depois disso."

O que o leitor de hoje precisa saber sobre os 70 anos

A obra foi lançada na Livraria José Olímpio, na Rua do Ouvidor, centro do Rio, no dia 16 de julho de 1956. Giannetti, que ocupa a cadeira 2 da ABL, a mesma que foi de Guimarães Rosa, descobriu ao ler a biografia de Nossa que tem parentesco com o escritor: o pai de Rosa, Florduardo, era primo do bisavô de Giannetti, João Pinheiro. "O Guimarães Rosa, a certa altura, jovem ainda, esboçou o desejo em cartas ao pai, de escrever uma biografia do João Pinheiro que é meu bisavô lá de Caeté."

Perguntas Frequentes

Por que Grande Sertão: Veredas ainda é considerado instigante?

Porque combina rigor formal com uma entrega criativa que o próprio autor chamava de "possessão", criando uma obra que desafia leitores e críticos há 70 anos.

Quem são os principais especialistas citados sobre a obra?

O imortal da ABL Eduardo Giannetti, o biógrafo Leonêncio Nossa e a cantora Adriana Calcanhotto, todos em entrevistas à Agência Brasil.

Qual a origem da linguagem do livro?

Rosa afirmava que não inventou uma língua, os vaqueiros de Minas Gerais, Bahia e Goiás falavam daquela forma. A palavra "nonada", por exemplo, era recorrente nos jornais brasileiros da época.

O livro foi um sucesso de vendas na época?

Sim. Apesar de ser considerado difícil, Grande Sertão estava entre os mais vendidos já em 1956, segundo o biógrafo Leonêncio Nossa.

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