Crimes da ditadura paraguaia seguem sem respostas, diz ator
Entre as ditaduras militares da América do Sul, a do Paraguai foi a mais longa. Dados da Comissão da Verdade e Justiça revelam quase 20 mil presos e 60 mortos. No CineSur, ator reflete sobre a falta de respostas.
Crimes da ditadura paraguaia seguem sem respostas, diz ator no CineSur
Eu vim de um cinema que sempre olhou para o presente, mas foi no passado que encontrei uma das histórias mais urgentes da América do Sul. No Bonito CineSur, festival que ocorre em Bonito (MS) até este sábado (1°/8), o ator Diro Romero trouxe à tona uma ferida que o tempo não fechou: os crimes da ditadura paraguaia seguem sem respostas.
Entre as ditaduras militares que se instalaram pelos países da América do Sul, nenhuma durou tanto quanto a do Paraguai, comandada pelo general Alfredo Stroessner entre os anos de 1954 e 1989. Durante esses 35 anos de governo, o regime prendeu arbitrariamente ou de forma ilegal quase 20 mil pessoas, torturou 19 mil e matou 60. Além disso, 3,5 mil precisaram ser exiladas, segundo dados divulgados em 2003 pela Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai. Entre os grupos que mais sofreram violações nesse período estavam os formados por pessoas LGBTQI+.
Um caso emblemático: Bernardo Aranda
Um dos casos mais emblemáticos dessa violência foi o assassinato do jovem Bernardo Aranda, em 1959, um locutor de rádio homossexual que amava o rock and roll e que foi queimado enquanto dormia. O crime jamais foi solucionado, mas, para a Comissão da Verdade e Justiça paraguaia, o assassinato pode ter sido tramado pelo governo militar.
A história de Aranda acabou inspirando o livro Narciso, escrito pelo escritor e jornalista paraguaio Guido Rodríguez Alcalá e que agora foi adaptado ao cinema pelo diretor Marcelo Martinessi.
O filme e sua recepção no CineSur
Chamado Quién Mato a Narciso?, o filme conquistou recentemente o Prêmio de Melhor Filme da Mostra Panorama do Festival de Berlim e foi exibido esta semana dentro da competição de filmes sul-americanos do Bonito CineSur.
"Esse crime nunca foi esclarecido até hoje. Por isso, durante a apresentação [do filme no Bonito CineSur], eu falei: 'Tanto no cinema quanto na vida, muitas vezes não temos respostas'. Então, no cinema também não há um desfecho, porque nós mesmos, no Paraguai, não sabemos a resposta. E este é apenas um dos muitos casos que ocorreram", disse o ator Diro Romero, que interpreta Narciso no cinema.
Para Romero, a história da ditadura no Paraguai é muito semelhante às vividas pelos demais países da América do Sul, com "desaparecidos, torturas e mortes que, até hoje, permanecem sem esclarecimento". Segundo ele, apresentar essa história por meio do cinema procura transmitir a ideia de que é preciso garantir que essa violência jamais volte a ocorrer entre países sul-americanos.
"Viemos do mesmo lugar. A ideia é que sejamos mais unidos. Acho que é isso que as pessoas querem, mas nossos líderes estão seguindo uma direção diferente. Estamos nos dividindo em um momento em que precisamos estar mais unidos do que nunca."
O novo momento do cinema paraguaio
Quién Mato a Narciso? marca um novo momento do cinema paraguaio. Nos últimos anos, o país instituiu novas políticas para incentivar sua produção cinematográfica, tais como a Lei do Cinema (2018), a criação do Instituto Nacional do Audiovisual do Paraguai e o recente acordo de coprodução cinematográfica e audiovisual do Mercosul.
O documento assinado pelo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai moderniza regras para o setor audiovisual dos países do bloco e permite que coproduções recorram a fundos públicos de fomento dos países que compõem o Mercosul.
Para o ator, músico, produtor e membro da Academia de Cinema e da União de Atores do Paraguai, Celso Franco, o cinema de seu país só começou, de fato, a ganhar impulso após o grande sucesso de 7 Caixas (2012), filme que ele protagonizou e que chegou a atrair 300 mil pessoas aos cinemas paraguaios.
"Foi um filme que teve um impacto enorme no cinema. Foi um fenômeno, e um fenômeno decorrente de uma questão que venho analisando há muito tempo: a falta de visão do Paraguai sobre si mesmo."
Há cerca de cinco anos, o setor de investimento ganhou impulso. "Agora temos o INAP, o Instituto Nacional do Audiovisual, que conta com fundos específicos para o cinema e vem impulsionando fortemente a produção audiovisual." Para ele, com essas novas políticas para o audiovisual, o cinema paraguaio poderá, finalmente, contar suas histórias. "Há muitas histórias para serem contadas."
Como isso afeta você
Se você acompanha o cinema sul-americano, sabe que a ausência de respostas não é só uma questão paraguaia. O que o filme de Martinessi faz é colocar na tela uma realidade que muitos preferem esquecer: a de que a violência de Estado deixou marcas que ainda doem. E, ao ver essa história, você é convidado a pensar sobre o papel do cinema em manter viva a memória.
cinema latino-americano e ditaduras
Onde assistir e por que vale o resgate
Quién Mato a Narciso? ainda está em circuito de festivais, mas a história de Bernardo Aranda e a força do cinema paraguaio já valem a busca. Se você se interessa por filmes que olham para o passado sem medo, este é um título para ficar de olho. E, como diz Romero, no cinema também não há um desfecho, porque a resposta ainda não existe.
Perguntas Frequentes
Quem foi Bernardo Aranda?
Bernardo Aranda foi um locutor de rádio homossexual, amante do rock and roll, assassinado em 1959, no Paraguai. O crime nunca foi solucionado, e a Comissão da Verdade e Justiça paraguaia aponta possível envolvimento do governo militar.
O que é o Bonito CineSur?
É um festival de cinema que ocorre em Bonito (MS), com competição de filmes sul-americanos. A edição de 2026 termina neste sábado (1°/8).
Quem dirigiu Quién Mato a Narciso??
O filme foi dirigido por Marcelo Martinessi, baseado no livro Narciso, de Guido Rodríguez Alcalá.
Onde posso assistir ao filme?
O filme foi exibido no CineSur e ainda não tem data de estreia comercial divulgada. Acompanhe os festivais de cinema para novas exibições.
Por que o cinema paraguaio cresceu?
Segundo Celso Franco, o sucesso de 7 Caixas (2012) deu impulso, e políticas como a Lei do Cinema (2018) e o INAP fortaleceram a produção local.