Brasileiro gosta de ler, mas tem dificuldade de acesso, diz escritor
Em noite de lotação no Pelourinho, Itamar Vieira Junior afirma que brasileiro gosta de ler, mas esbarra na desigualdade de acesso. Dados da Retratos da Leitura mostram 47% de leitores no país.
Brasileiro gosta de ler, mas tem dificuldade de acesso, diz escritor na Flipelô
Na noite de ontem (7), o Largo do Pelourinho, em Salvador, ficou lotado para ouvir o escritor Itamar Vieira Junior na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô). Diante da plateia, ele foi direto: não é verdade que o brasileiro não gosta de ler. O problema, segundo ele, é a desigualdade de acesso aos livros.
A afirmação que rebate o mito
"Posso dizer para vocês que, em toda parte do Brasil, a quantidade de pessoas interessadas em livros e em leitura é imensa", disse o autor, arrancando aplausos do público. "Isso não é verdade. O que existe é desigualdade de acesso." A declaração resume a tese que ele defendeu durante o encontro: o interesse pela leitura existe, mas esbarra em barreiras concretas.
O papel das bibliotecas públicas na formação de leitores
Itamar Vieira Junior, autor da Trilogia da Terra, que começou com Torto Arado, passou por Salvar o Fogo e termina com Coração sem Medo, contou que frequentou muitas bibliotecas públicas de Salvador na juventude. Para ele, essas instituições foram essenciais na sua formação, e o país precisa ampliá-las.
"É um país profundamente desigual e o livro não é barato. E às vezes não há uma biblioteca pública no bairro onde a gente mora lá na periferia", criticou. "Se não houvesse essas bibliotecas, certamente eu teria perdido muito das leituras que eu fiz ali na minha adolescência, no começo da vida adulta. Mas o certo, o ideal, era que tivesse uma biblioteca em cada bairro", ressaltou.
Os números da leitura no Brasil
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, divulgada em 2024, reforça o diagnóstico do escritor. O levantamento apontou que 47% da população com 5 anos ou mais se declarou leitora, o equivalente a cerca de 93,4 milhões de pessoas. Por outro lado, 53% não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores, e o país perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos.
Os dados mostram um cenário de queda, mas também de oportunidades. A leitura segue presente na vida de quase metade dos brasileiros, ainda que o acesso seja desigual.
Sinais de recuperação no mercado editorial
Apesar dos desafios, o mercado editorial começa a dar sinais de recuperação. O Panorama do Consumo de Livros no Brasil, da Câmara Brasileira do Livro com a Nielsen BookData, apontou que 18% da população adulta comprou ao menos um livro em 2025. O número representa alta de 2 pontos percentuais em relação a 2024, o que equivale a cerca de 3 milhões de novos consumidores.
A recuperação, porém, não resolve o problema de acesso. Comprar livros ainda é um privilégio para parte da população, e é aí que entram as políticas públicas.
Políticas públicas como caminho para ampliar o acesso
Para Itamar, aumentar o número de leitores no país passa por criar políticas públicas que garantam o acesso das pessoas aos livros. Um dos exemplos que ele citou foi o MEC Livros, plataforma pública digital que reúne e disponibiliza gratuitamente obras literárias em formato digital, por meio de empréstimo.
"Esse ano veio um projeto muito bonito que é o MEC Livros. E aí não importa se você está lá numa comunidade isolada no Amazonas ou se você está numa grande cidade como Salvador ou São Paulo, mas você tem o livro ali [ao alcance, de forma gratuita]", afirmou. "Esse é um instrumento que veio para reduzir e mitigar essa desigualdade de acesso que existe."
O autor também destacou que um de seus livros, Torto Arado, é o mais emprestado da plataforma, um sinal de que a demanda por leitura existe quando o acesso é facilitado.
A conclusão do escritor sobre o leitor brasileiro
"Mas que o brasileiro gosta de história e gosta de ler, nós sabemos. Gosta muito, desde sempre", concluiu Itamar. A frase, dita ao final de sua participação na Flipelô, sintetiza o recado que ele quis deixar: o problema não é a falta de interesse, mas a falta de condições.
A discussão sobre acesso à leitura ganha ainda mais relevância em um país onde a desigualdade se reflete também na distribuição de bibliotecas e na oferta de livros a preços acessíveis. Iniciativas como o MEC Livros, ao lado de políticas de ampliação de bibliotecas públicas, aparecem como caminhos possíveis para mudar esse quadro.
Perguntas Frequentes
O brasileiro não gosta de ler?
Segundo Itamar Vieira Junior, essa afirmação não é verdadeira. Ele defende que o brasileiro gosta de ler, mas enfrenta dificuldades de acesso a livros e bibliotecas.
Qual é o percentual de leitores no Brasil?
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, apontou que 47% da população com 5 anos ou mais se declarou leitora em 2024, cerca de 93,4 milhões de pessoas.
O que é o MEC Livros?
É uma plataforma pública digital que reúne e disponibiliza gratuitamente obras literárias em formato digital, por meio de empréstimo. O livro Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, é o mais emprestado da plataforma.
Como aumentar o número de leitores no Brasil?
Para Itamar, é preciso criar políticas públicas que garantam o acesso das pessoas aos livros, como a ampliação de bibliotecas públicas e iniciativas digitais gratuitas.
O mercado editorial brasileiro está em recuperação?
O Panorama do Consumo de Livros no Brasil apontou que 18% da população adulta comprou ao menos um livro em 2025, alta de 2 pontos percentuais em relação a 2024, o que representa cerca de 3 milhões de novos consumidores.