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Bethânia Amaro estreia no romance, dando voz a profissionais do sexo

ResumoBethânia Amaro estreia no romance com *Ressalga*, obra que devolve protagonismo a profissionais do sexo da Ladeira da Montanha, em Salvador. A pesquisa da autora aborda a invisibilização histórica dessas mulheres e integra a programação da Flipelô. O livro ficcionaliza relatos reais, ampliando a representatividade literária e contestando o apagamento social dessa comunidade.

Bethânia Amaro estreia no romance com Ressalga, obra que devolve o protagonismo a profissionais do sexo da Ladeira da Montanha, em Salvador. A autora fala à Agência Brasil sobre pesquisa, invisibilização histórica e a participação na Flipelô.

Marcelo Tenório
Marcelo Tenório Repórter de Animação e Cinema de Gênero · 05 de agosto de 2026
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VereditoBethânia Amaro estreia no romance com Ressalga, obra que devolve o protagonismo a profissionais do sexo da Ladeira da Montanha, em Salvador. A autora fala à Agência Brasil sobre pesquisa, invisibilização histórica e a participação na Flipelô.

Bethânia Amaro estreia no romance com 'Ressalga' e devolve a voz a profissionais do sexo de Salvador

A escritora Bethânia Pires Amaro estreia no romance com Ressalga, obra que parte da transformação da Ladeira da Montanha, em Salvador (BA), para reconstruir a história de profissionais do sexo que foram centrais na região entre as décadas de 1950 e 1970. O livro será apresentado na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), que ocorre de hoje (5) a domingo (9) no Centro Histórico de Salvador.

Bethânia Amaro estreia no romance dando voz a profissionais do sexo que atuaram na Ladeira da Montanha, reduto da boemia e da vida noturna soteropolitana no período. A autora conversou com a Agência Brasil sobre a pesquisa, o processo de escrita e a importância de apresentar a obra na cidade onde a história acontece.

O que é Ressalga, romance de estreia de Bethânia Amaro

Ressalga é o primeiro romance de Bethânia Pires Amaro. A narrativa é metaficcional e acompanha três gerações de mulheres na Bahia, com destaque para Graça, personagem que se torna a maior cafetina da cidade. A trama é inspirada na trajetória real de prostitutas que trabalharam na Ladeira da Montanha e precisaram desenvolver estratégias de sobrevivência diante da violência do período.

A obra é permeada por acontecimentos históricos do país, como a morte de Getúlio Vargas, e por figuras reais, como o médium Zé Arigó. A intenção, segundo a autora, era que o leitor se sentisse transportado para Salvador e para o Brasil das décadas de 1950, 1960 e 1970.

A Ladeira da Montanha como ponto de partida

A Ladeira da Montanha, que liga as cidades Alta e Baixa em Salvador, foi o ponto de partida da pesquisa. A região, que já foi um dos centros da boemia na capital baiana, hoje está em ruínas. "Atualmente a Ladeira da Montanha está completamente desmoronada, fantasmagórica, uma rua realmente bastante arruinada, no sentido mais literal possível, os prédios estão em ruínas", disse Bethânia à Agência Brasil.

A escritora cresceu em Salvador e sabia que a ladeira havia sido um dos grandes centros boêmios da cidade. A curiosidade de entender como o local passou de um ponto de efervescência cultural a uma região abandonada a levou a investigar quem eram as mulheres que protagonizaram a vida noturna do período.

O projeto abortado de Jorge Amado e as fotos de Flávio Damm

Durante a pesquisa, Bethânia descobriu que Jorge Amado planejava escrever um livro sobre o cotidiano das mulheres que trabalhavam na Ladeira da Montanha. O projeto, que seria intitulado Mulher Dama, chegou a ter uma mostra de fotografias encomendada a Flávio Damm, mas nunca foi concluído.

A obra foi abandonada em razão da repressão que se seguiu ao Ato Institucional número 5 (AI-5), durante a ditadura militar. As imagens ficaram guardadas por mais de 50 anos, até que uma mostra foi realizada em Salvador, em 2018. "Foi a primeira vez que essas fotos saíram da sombra. Tudo isso só me mostrou com mais segurança que havia uma história ali a ser contada", afirmou a escritora.

A invisibilização das profissionais do sexo na historiografia

A pesquisa histórica revelou um desafio: o material encontrado sobre a região era quase sempre produzido sob uma lente masculina. A Assembleia Legislativa da Bahia mantém um trabalho de preservação da memória de grandes personalidades do estado, mas o acervo é composto majoritariamente por biografias de homens.

"Foi por meio das lembranças desses homens e das biografias deles, ali pelos cantos dessas biografias e entrevistas, que fui reconstruindo o mosaico da vida dessas mulheres, porque elas não constaram da historiografia oficial, elas foram realmente apagadas em termos de registro histórico", explicou.

A escritora destacou o impacto dessa descoberta: "Essas mulheres tinham sido o coração daquela região, daquele centro histórico, e não havia nada na voz delas, não havia nada mesmo. Foi uma invisibilização da existência dessas mulheres".

Maria Pires e Maria da Vovó: as personagens reais que inspiraram o livro

A trama de Ressalga foi inspirada em prostitutas que realmente existiram e trabalharam na Ladeira da Montanha. Entre elas, Bethânia destacou duas figuras.

Maria Pires ficou conhecida na capital por oferecer 50% de desconto para estudantes. Já Maria da Vovó comandou um cabaré que reunia até 60 mulheres nas noites mais cheias e revolucionou o mercado sexual da época. Ela também ficou marcada por enfrentar constantemente a violência policial dirigida contra as profissionais do sexo.

O contexto histórico e as figuras reais em Ressalga

O romance mantém um forte substrato histórico. O leitor encontra referências ao suicídio de Getúlio Vargas, à ascensão de Juscelino Kubitschek ao poder e a figuras menos conhecidas, como o médium Zé Arigó, que realizava cirurgias espirituais no Brasil no período, e o delegado de costumes da capital, Almir Araújo.

"A ideia é que o leitor se sinta transportado para Salvador e para o Brasil dos anos 50, 60, 70 e que a história se mostre a ele sob esse aspecto, uma história verossímil, que de fato é muito semelhante ao que estava acontecendo no país naquele momento", disse Bethânia. O trabalho é ficcional, mas com base em acontecimentos reais.

O protagonismo feminino como antídoto ao estereótipo

Para Bethânia, devolver o protagonismo às mulheres é uma forma de combater abordagens reducionistas. "Tradicionalmente, a mulher ficava muito restrita, inclusive na literatura, a determinados papéis. Então, ela era a esposa, a amante, a puta. Abordagens que normalmente eram bastante reducionistas", afirmou.

A escritora disse que uma das preocupações centrais do trabalho foi celebrar a existência dessas mulheres e não reduzi-las aos abusos que sofriam. "São personagens densas, complexas, e o leitor é colocado diante de situações desconfortáveis e de escolhas muito difíceis que essas mulheres precisavam fazer", completou.

Bethânia Amaro na Flipelô 2026

A escritora participa da Flipelô, que acontece no Centro Histórico de Salvador. No próximo sábado (7), ela participa de bate-papo na Casa Motiva e na Casa Odisseu. A escolha do local tem um significado especial: Ressalga se passa, em grande parte, exatamente onde o festival ocorre.

"Estou muito ansiosa por essa participação na Flipelô, um festival lindíssimo que já acompanho há vários anos. Em especial, porque Ressalga se passa, em grande parte, no centro histórico de Salvador, exatamente onde ocorre a Flipelô. É literalmente o território de onde a história surgiu", declarou.

Bethânia também citou a influência de autores baianos como Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro. "São autores que, quando eu era criança, me mostraram que as histórias ali ao meu redor, do lugar onde eu vivia, também mereciam ser contadas", lembrou.

O reconhecimento de Bethânia Amaro na literatura

Antes de Ressalga, Bethânia publicou o livro de contos Ninho, vencedor dos prêmios Jabuti, APCA e Sesc de Literatura, todos na categoria Contos. A estreia no romance chega com a expectativa de repetir o reconhecimento da crítica.

Perguntas Frequentes

Quando Bethânia Amaro lança Ressalga?

Ressalga será apresentado durante a Flipelô, que ocorre de hoje (5) a domingo (9) no Centro Histórico de Salvador. A autora participa de bate-papo na Casa Motiva e na Casa Odisseu no sábado (7).

Qual é a história de Ressalga?

O romance conta a história de três gerações de mulheres na Bahia, com foco em Graça, que se torna a maior cafetina da cidade. A trama é inspirada em profissionais do sexo que atuaram na Ladeira da Montanha entre as décadas de 1950 e 1970.

Quem são as profissionais do sexo que inspiraram o livro?

Duas figuras reais se destacam: Maria Pires, conhecida por oferecer 50% de desconto para estudantes, e Maria da Vovó, que comandou um cabaré com até 60 mulheres nas noites mais cheias.

Onde fica a Ladeira da Montanha?

A Ladeira da Montanha fica em Salvador (BA) e liga as cidades Alta e Baixa. A região foi um reduto da boemia entre as décadas de 1950 e 1970 e hoje está em ruínas.

Bethânia Amaro já publicou outros livros?

Sim. O primeiro livro da autora, Ninho, foi vencedor dos prêmios Jabuti, APCA e Sesc de Literatura, todos na categoria Contos.

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